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23/05/17 12:04

Al Gore: Trump não conseguirá parar “revolução da sustentabilidade”

por Elaine Guerini | Valor

CANNES – Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, não vê mais Donald Trump, o atual chefe de Estado americano, como um inimigo em sua cruzada no combate às mudanças climáticas globais. “Agora, após quatro meses de Trump no governo, sabemos que ele não conseguirá parar a revolução da sustentabilidade ou as soluções encontradas para a crise climática, não importando o que ele faça”, disse Al Gore nesta segunda-feira, antes de apresentar o documentário “Uma Verdade Mais Inconveniente” nesta 70ª edição do Festival de Cinema de Cannes.

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Em conversa com pequeno grupo de jornalistas, da qual Valor participou, no hotel Carlton, Gore afirmou que os EUA continuarão a reduzir emissões (de gases de efeito estufa) para deter o aumento da temperatura do planeta. “Estados como Califórnia e Nova York estão movendo ainda mais rápido do que o esperado, de acordo com compromisso assumido por Barack Obama em Paris”, diz ele, referindo-se ao pacto firmado em dezembro de 2015 por 195 países para garantir um aquecimento global abaixo de 2ºC, em relação aos níveis pré-industriais.

Usando o exemplo mais recente, de Atlanta, Al Gore lembrou que várias cidades americanas já estão fazendo a transição para gerar 100% de energia renovável. A capital da Georgia anunciou a iniciativa no começo deste mês, com prazo para completar a mudança até 2035. “Além de Atlanta, uma das cidades republicanas mais conservadoras, como Georgetown, no Texas, acabou de completar a sua transição. E nem foi preciso discutir o aquecimento global. Isso aconteceu por já ser economicamente vantajoso, mesmo na terra do petróleo, abandonar os combustíveis fósseis”.

Prêmio Nobel da Paz de 2007, Al Gore teve um encontro com Trump em dezembro, como é mencionado no documentário que segue os passos do ativista — em sua jornada pelo mundo, ministrando palestras, para formar novos defensores ambientais. “Apesar de ter criticado a política de Trump, assim como alguns de seus nomeados [incluindo Scott Pruitt, como chefe da Agência de Proteção Ambiental, a EPA], continuo em contato com ele, mantendo o foco da conversa nas razões pelas quais os EUA devem sustentar a sua parte no Acordo de Paris. Tenho uma esperança realista de que Trump não retirará os EUA do pacto, o que será muito significativo”.

Trump estaria mais vulnerável atualmente, diante da acusação de obstrução de Justiça, processo que pode culminar em impeachment? “Eu não sei como isso vai se desenrolar. Só posso dizer que o homem nomeado como conselheiro especial para a investigação é de muita integridade, respeitado em todo os EUA”, afirma Al Gore, referindo-se ao ex-diretor do FBI Robert S. Mueller, encarregado do caso Trump-Rússia (de suspeito envolvimento do governo russo na campanha presidencial no ano passado).

“Pelo menos agora há uma sensação de alívio dos dois lados, de quem se opõe a Trump e de quem o apoia. Qualquer que seja o resultado dessa investigação, as pessoas vão aceitar. Se não houver evidências, OK. Se houver, levaremos ao próximo capítulo”, diz o ex-vice-presidente democrata. Ele foi vice de Bill Clinton, entre 1993 e 2001, e candidato a presidente nas eleições de 2000 (quando perdeu para o republicano George W. Bush).

Mesmo em sua luta diária para reverter os danos decorrentes das mudanças climáticas, Al Gore adota o recorte político. Nas palestras que realiza pelo mundo, ele faz uma conexão entre as mudanças na natureza provocadas pelo homem e a Guerra na Síria e, consequentemente, o Brexit.

“Especialistas em segurança nacional já alertaram que a crise climática tem potencial para desencadear a maior onda de refugiados da história. Nesse processo, a estabilidade política pode ser ameaçada, como foi o caso trágico da Síria. A pior seca já registrada na Síria, forçando as pessoas a procurarem outros lugares, foi o que contribuiu para abrir as portas do inferno por lá”.

O Brexit também teria sido provocado, em parte, pelas mudanças climáticas. “O outdoor mais poderoso da campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia mostrava a imagem de uma fila interminável de refugiados na fronteira com a Europa.” Mas há, certamente, outras explicações para a insurreição populista, exemplificada com o Brexit, Trump e o avanço da Frente Nacional na França (ainda que Marine Le Pen tenha sido derrotada recentemente nas urnas). “É um desejo de tentar as alternativas. Felizmente, o resultado da eleição francesa nos encoraja a pensar que já conhecemos as consequências do populismo autoritário e não queremos mais isso”.

Al Gore conheceu o novo presidente da França, Emmanuel Macron, durante a Conferência do Clima de Paris. “Ele me dá esperança por ter nomeado Nicolas Hulot [um ativista ambiental] como ministro da Ecologia”, diz o democrata, antes de seguir para a sessão oficial do documentário que retrata a sua jornada, no Palácio dos Festivais, na Croisette.

Esta é a segunda vez em que Al Gore participa do Festival de Cannes. A primeira foi com o documentário anterior, “Uma Verdade Inconveniente” (2006). A obra dirigida por Davis Guggenheim mostrou o início de seu trabalho de conscientização sobre o aquecimento global e conquistou o Oscar de melhor documentário.

Com direção de Bonni Cohen e Jon Shenk, o novo longa-metragem é uma continuação, intitulada “Uma Verdade Mais Inconveniente” no Brasil, onde tem estreia agendada para 9 de novembro. “O filme é a maneira mais eficaz de atingir milhões de pessoas. Como faço apresentação de slides para cem participantes de cada vez, mesmo que eu passasse a minha vida toda fazendo isso não alcançaria o mesmo público que o cinema pode proporcionar”.

Desta vez, Al Gore mostra como algumas das previsões do filme anterior estavam corretas, incluindo a inundação da área do novo World Trade Center, em Nova York, em 2012. Não há referência ao Brasil no filme. Pelo menos não diretamente. “Mas abordamos o vírus zika, que é um problema sério em países da América Central e do Sul”, diz ele, lembrando que a propagação de doenças tropicais está no cardápio dos problemas derivados das mudanças climáticas. “Até então eu nunca tinha ouvido uma orientação médica tão alarmante. Estão pedindo que as mulheres não engravidem nos próximos dois anos, tempo mínimo para que os cientistas entendam o que está acontecendo”.

Fonte: Valor Econômico > Notícias > Cultura & Estilo